quarta-feira, julho 06, 2005

Que perguntas faria?

Se me fosse concedido fazer umas poucas perguntas e descobrir a verdade acerca delas, que perguntas faria?

A primeira coisa que me veio à mente foram as perguntas da amnésia. Quem sou eu? Onde estou? De onde vim? Pra onde vou?

Mal ou bem, de alguma forma eu sei responder a isso. Sou o André, eu me conheço: homem, músico, engenheiro, metido a filósofo. Estou aqui, com problemas, no Rio de Janeiro - Brasil, nesse mundo tão complicado. Nasci na família do Tio Fernando e da Tia Telma, em Fortaleza. Pra onde vou não sei. Mas a vida, como quer que eu a viva, acabará na morte.

Pensando nessas perguntas, vieram outras, as quais não sei responder. Qual o sentido de tudo isso? Sim, o sentido da vida. Que tenho que fazer pra ser plenamente feliz? Isso é possível? E depende de mim? O que é exatamente a minha existência? Ela acaba com a minha morte ou se prolonga de alguma forma?

Se ao menos me fosse concedido saber umas poucas respostas... A chave de tudo.

terça-feira, julho 05, 2005

A verdade está lá fora

"Que é a verdade?" (Pôncio Pilatos)

Uma consequência da realidade objetiva das coisas: se as coisas são como são, existe uma verdade a respeito delas. A verdade de uma coisa é o que ela é. Saber a verdade sobre algo consiste em saber exatamente o que esse algo é e o que esse algo não é.

Primeiramente, note que podemos nos enganar. Posso errar na minha compreensão do mundo, considerando verdadeira uma proposição falsa e vice-versa. Isso é possível porque dentro da minha cabeça não entram as coisas como são, mas apenas conceitos imperfeitos (que são sempre menores do que a coisa, visões pariciais da realidade), captados através das experiências que tive. São como fotografias bidimensionais tiradas de alguns ângulos, a partir das quais eu tento, mentalmente, idealizar a coisa em terceira dimensão.

- Sim, eu posso me enganar a respeito da verdade.

Mas as coisas continuam sendo o que são, independentemente tanto da minha vontade quanto da minha compreensão. Todas as minhas idéias a respeito do mundo, objetivamente, poderiam ser qualificadas como verdadeiras ou falsas. E o gabarito é simplesmente esse: a realidade como ela é.

Como conheço? Como aprendo? -Capto impressões das coisas, e mentalmente formulo proposições. Mas minhas impressões não são perfeitas. Longe disso. Eu nunca esgoto a realidade. Há sempre algo mais para se aprender sobre qualquer coisa. O processo de conhecimento é gradativo, e, até onde a experiência mostra, é também ilimitado, porque a realidade é riquíssima e parece não ter limites. -Quem se atreve e dizer que sabe tudo, nem que seja sobre um nadica de nada? -Só um completo ignorante.

Porque a apreensão da realidade se faz de forma gradativa, e como o conhecimento é sempre limitado, note que pode haver maior ou menor grau de verdade no conhecimento que duas pessoas diferentes possuem da mesma coisa, sem que nenhuma das duas possua a verdade completamente, pois a verdade é a profundidade da coisa como ela é; e sem que nenhuma das duas esteja completamente enganada, porque ambas apreenderam algo do seu contato com a realidade.

Por muito que eu pense, formule teorias, pratique esgrima mental e fabrique mil "verdades", se minhas conclusões se afastam da realidade, cometi um erro. Não servem pra nada, pois o mundo é diferente. É a verdade desse mundo diante dos meus olhos que importa.

segunda-feira, julho 04, 2005

Crise

Estou atrasado. (Felizmente produzo idéias mais rapidamente do que consigo escrever.) Penso, no entanto, que é chegada a hora de uma justificativa mais elaborada. Alice me perguntou, na lata: por que a iniciativa do blog?

Em primeiro lugar, porque passo por uma fase turbulenta. Talvez seja uma crise de maturidade, o que quer que seja, um ponto de inflexão na minha vida. Desapareceu o chão sob os meus pés, minhas convicções foram todas abaladas, minha fé, meus princípios; e agora procuro reconstruir tudo. Do zero, sim. Recuperar-me de uma crise. Sair dessa depressão.

Preciso organizar minhas idéias, e colocá-las por escrito é uma boa forma. Eu gosto de escrever. (E atrás das idéias irá a vida.)

Naturalmente, essas palavras são a ponta de um iceberg. Há muita história por trás delas, há muita reflexão também. Parece que vai tudo bem, o pior já passou.

Busco tantas respostas. Alguém me disse que estou agindo como um ateu racionalista. Fiquei até feliz com isso, pois, se tudo foi destruído, tenho a oportunidade de reconstruir tudo. E pretendo reconstruir algo melhor dessa vez, com a sabedoria da experiência.

“Crise” é uma etapa ou um ciclo, que encerra, conforme o ideograma dessa palavra em chinês, os seguintes ingredientes: risco e oportunidade.

-Aceito o desafio.

Tenho ainda, devo dizer, o desejo de que esta experiência possa ser útil para outros que passem por dificuldades semelhantes.

Uma última palavra, sobre Deus. Ainda não abordei de frente o tema, mas será inevitável. Fui Católico durante meus 28 anos (acho que ainda sou), e tenho arraigado o hábito de dirigir a palavra a Deus. Peço a Deus que não me deixe entrar por caminhos tortuosos nos meus pensamentos, que estes não me conduzam a caminhos mais tortuosos ainda na minha vida. Peço a todos que rezem por mim. Por isso não se pode estranhar que, mesmo tentando ser imparcial, a referência tenha saído algumas vezes até agora. No entanto, honestamente, eu me pergunto se Deus existe.

Um amigo me sugeriu uma oração, que eu achei muito oportuna: Deus, se você existir, que eu te encontre, que eu te ame, e que eu deixe você me amar.

Essa será minha próxima tarefa.

Não sei o que vou encontrar. Mas sei o que quero pra mim. Uma vida boa, no bom sentido da expressão.

domingo, julho 03, 2005

Oração da serenidade

Fiquei contente de saber que as reuniões do Alcólicos Anônimos e de outros grupos semelhantes sempre acabam com a oração da serenidade, que copio:
"Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos, e sabedoria para distinguir umas das outras."
Isso joga uma nova luz sobre o artigo anterior: Revoltar-se ou Conformar-se?. Serenidade, coragem e sabedoria. Fico mesmo muito feliz de ter chegado até aqui. Tanto que transcrevo na íntegra a minha referência:

O QUE É A SERENIDADE?

O termo é definido do varias maneiras: a calma, o sossego, a paz, e tranqüilidade, a paz da mente, o equilíbrio emocional, o estado não perturbado, o sangue frio e o domínio de si. Contudo, do ponto do vista prático, talvez a melhor definição seria “a capacidade de viver em paz com os problemas não resolvidos".

A Oração da Serenidade fala em “aceitar as coisas que não podemos modificar”. A aceitação não deve ser confundida com a indiferença. A indiferença deixa do distinguir entre as coisas que podem e as que não podem ser mudadas. A indiferença paralisa a iniciativa. A aceitação libera a iniciativa, aliviando-a das cargas impossíveis. A aceitação é um ato do livre arbítrio, mas, para ser eficaz requer a coragem moral de se persistir apesar do problema imutável. A aceitação liberta o aceitante, rompendo-lhe as cadeias da autopiedade. Uma vez aceito o que não pode ser modificado, a gente fica livre para empenhar-se em novas atividades.

Foi dito que uma mente imatura procura um mundo idealístico. Queiramos ou não, precisamos encarar o mundo da realidade e aceitar a vida tal qual ela é, com todas as suas crueldades e inconsistências. Talvez, em ultima análise, o inicio da sabedora esteja na simples admissão de que as coisas nem sempre são como queríamos que fossem. E que nós mesmos somos imperfeitos e não tão bondosos e trabalhadores quanto gostaríamos do ser.

sábado, julho 02, 2005

Vale de lágrimas

Em Matrix, há um diálogo interessante entre Morpheus e Agent Smith.
Contextuo: com a rebelião das máquinas veio a guerra, e nós humanos, numa medida desesperada, escurecemos o céu para privá-las da sua principal fonte de energia: o Sol. Provavelmente, com isso, toda a biosfera foi afetada. O homem, intelecto flexível, adaptou-se para sobreviver às novas condições climáticas. E as máquinas, inteligentes e portanto também capazes de adaptação, encontraram uma nova fonte de energia no próprio homem. A espécie humana passou então a ser cultivada pelas máquinas em grandes fazendas cibernéticas. E para manter cada indivíduo aprisionado à planta das usinas bioelétricas, as máquinas criaram a Matrix: um sistema de realidade virtual neuro-iterativo, conectado diretamente a todos os sentidos humanos desde sua artificial concepção até a morte.

O resultado é uma prisão para a mente humana. As pessoas cultivadas vivem, aparentemente, como se estivessem no "auge da civilização humana", no tempo presente, antes da descoberta da inteligência artificial. Já nascem conectadas à Matrix, têm vidas aparentemente normais, não tendo como saber que na verdade são prisioneiras de um sistema literalmente desumano.

A história suscita muitas reflexões filosóficas. Mas detenho-me agora no diálogo a que me referia.

Smith revelava a Morpheus que nas primeiras versões da Matrix, as máquinas produziram um mundo perfeito, sem problemas, sem sofrimento, sem dor. Foi um desastre. Perderam "safras" inteiras. Dizia:

"Did you know that the first Matrix was designed to be a perfect human world? Where none suffered, where everyone would be happy. It was a disaster. No one would accept the program. Entire crops were lost. Some believed we lacked the programming language to describe your perfect world. But I believe that, as a species, human beings define their reality through suffering and misery. The perfect world was a dream that your primitive cerebrum kept trying to wake up from. Which is why the Matrix was re-designed to this: the peak of your civilization."

A ficção deliciosa me faz lembrar que todos sofrem. Faz parte da vida o sofrer, de uma forma imperativa, necessária, avassaladora. Ricos e pobres, jovens e velhos, sãos e enfermos, lá e cá. O mundo é um vale de lágrimas, como afirmam os cristãos ao saudarem sua Rainha.

sexta-feira, julho 01, 2005

Sobre a música que acabamos de ouvir

"Eu não sou o umbigo do mundo."

Apenas Ouça

Virgem
(Marina Lima)

As coisas não precisam de você
Quem disse que eu tinha que precisar
As luzes brilham no Vidigal
E não precisam de você
Os dois irmãos também não ..... precisam
O hotel Marina quando acende
Não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor
Os inocentes do Leblon
Esses nem sabem de você (Não sabem de você, nem vão querer saber)
E o farol da ilha só gira agora (E o farol da ilha procura agora)
Por outros olhos e armadilhas
Outros olhos e armadilhas
Eu disse!
Outros olhos (e armadilhas)....
As coisas não precisam de você