sábado, julho 02, 2005

Vale de lágrimas

Em Matrix, há um diálogo interessante entre Morpheus e Agent Smith.
Contextuo: com a rebelião das máquinas veio a guerra, e nós humanos, numa medida desesperada, escurecemos o céu para privá-las da sua principal fonte de energia: o Sol. Provavelmente, com isso, toda a biosfera foi afetada. O homem, intelecto flexível, adaptou-se para sobreviver às novas condições climáticas. E as máquinas, inteligentes e portanto também capazes de adaptação, encontraram uma nova fonte de energia no próprio homem. A espécie humana passou então a ser cultivada pelas máquinas em grandes fazendas cibernéticas. E para manter cada indivíduo aprisionado à planta das usinas bioelétricas, as máquinas criaram a Matrix: um sistema de realidade virtual neuro-iterativo, conectado diretamente a todos os sentidos humanos desde sua artificial concepção até a morte.

O resultado é uma prisão para a mente humana. As pessoas cultivadas vivem, aparentemente, como se estivessem no "auge da civilização humana", no tempo presente, antes da descoberta da inteligência artificial. Já nascem conectadas à Matrix, têm vidas aparentemente normais, não tendo como saber que na verdade são prisioneiras de um sistema literalmente desumano.

A história suscita muitas reflexões filosóficas. Mas detenho-me agora no diálogo a que me referia.

Smith revelava a Morpheus que nas primeiras versões da Matrix, as máquinas produziram um mundo perfeito, sem problemas, sem sofrimento, sem dor. Foi um desastre. Perderam "safras" inteiras. Dizia:

"Did you know that the first Matrix was designed to be a perfect human world? Where none suffered, where everyone would be happy. It was a disaster. No one would accept the program. Entire crops were lost. Some believed we lacked the programming language to describe your perfect world. But I believe that, as a species, human beings define their reality through suffering and misery. The perfect world was a dream that your primitive cerebrum kept trying to wake up from. Which is why the Matrix was re-designed to this: the peak of your civilization."

A ficção deliciosa me faz lembrar que todos sofrem. Faz parte da vida o sofrer, de uma forma imperativa, necessária, avassaladora. Ricos e pobres, jovens e velhos, sãos e enfermos, lá e cá. O mundo é um vale de lágrimas, como afirmam os cristãos ao saudarem sua Rainha.

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