segunda-feira, outubro 16, 2006

Comentando...

Tanto Hobbes quanto Rousseau debruçaram-se sobre o mistério do mal.

Se todos queremos ser felizes, por que não juntamos forças para consegui-lo definitivamente? -Todos sabemos por experiência que isso não funciona.

A análise de Hobbes é interessante. Ele observa o egoísmo, o orgulho e a vaidade como elementos da natureza humana causadores de infelicidade (não há felicidade sem paz e segurança). Ele parte, ao que me parece, da constatação do mal no mundo. Mas me parece que ele propõe um conformismo com essa dura realidade. Em pequena escala Hobbes chega numa cumplicidade cínica. "Admitamos: no fundo, odiamo-nos."

Já Rousseau me parece ingênuo ao crer piamente no homem bom. O que acontece quando o homem se entrega a seus instintos naturais? Nesse sentido, acho que a visão de Hobbes aproxima-se mais da nossa experiência cotidiana. Parece ser mais fácil ser mau do que ser bom. Entretando, Rousseau é mais otimista quando propõe uma busca do homem perdido, da bondade original do homem.

A visão cristã-semita concilia essas idéias afirmando que o homem foi criado por Deus em estado de perfeição, de plenitude e bondade. É a doutrina do pecado original quem afirma que houve um problema: nossos ancestrais se desentenderam com Deus, e perderam de alguma forma a natureza original do ser humano, ficando inclinados ao mal (ao pecado).

A natureza original do homem é boa, porque saiu das mãos de Deus que fez tudo e "viu que era bom".

A natureza caída é a que temos hoje. Nostálgica de plenitude e de felicidade, mas inclinada ao mal.

Diferentes pontos de vista sobre a natureza humana.

O homem: natureza má.

Hobbes (1588-1679) – filósofo empirista inglês, materialista e mecanicista – afirma que o homem, em seu estado natural, busca dominar e escravizar seus semelhantes.

O homem, por natureza, procura ultrapassar todos os seus iguais: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais, mas, sobretudo, a satisfação de pisar nos outros. O homem é predador do próprio homem: o homem é o lobo do homem. Os seres humanos são, por natureza, capazes do pior. O amor e outras similares emoções positivas tendem a esboroar-se perante a própria irracionalidade e agressividade inerentes ao ser humano.

Assim sendo, para viabilizar sua sobrevivência em grupo, o homem cria o pacto social, uma espécie de trégua na guerra de todos contra todos para estabelecer a paz e a segurança.


O homem: natureza boa.


Rousseau (1712-1778) – filósofo iluminista e enciclopedista francês – afirma exatamente o contrário no que diz respeito ao estado natural do homem. Afirma que o homem é bom por natureza, e que a sociedade é que o corrompe. O problema não está no homem em si, mas nos defeitos do sistema, nas falhas desse pacto social que Hobbes outrora apontara como sendo o atenuador do gigantesco egoísmo humano.

segunda-feira, julho 31, 2006

Eu só quero é ser feliz... (cantava o funk)

(Faz tempo que não ponho idéias aqui, o que não significa nada. Por que continuar organizando esses conceitos de racionalista ateu rondando o mistério da religião? -Não estou nem mesmo convencido de que é isso o que estou fazendo.

Mas chega, por ora, de tratar da moralidade. Moral é a arte de viver bem. Conduz à feliicidade.)

Conversava eu com um amigo do Canadá, sobre o fenômeno religioso. Ele é historiador. Parece que a religião é um fenômeno presente desde sempre, em todas as sociedades e em todas as culturas, algo que está de certa forma presente em todo ser humano.

Por que será? O ser humano tem uma sede de transcendência que lhe é natural. Uma sede que não só o faz buscar a saciedade, mas que também o consome nessa vida de todos nós.

Parece que está sempre faltando alguma coisa. Há um vazio infinito, um buraco que não tem mais fundo na alma de cada qual.

E se há sede, havemos de buscar a água. Somos assim.

Para cada necessidade humana, da primeira à última, deve existir um bem capaz de saciá-la. Para a fome a comida, para a sede a água, para o cansaço sono, para a solidão o outro.

E todo mundo sente a irremediável vontade de ser feliz. É nossa vontade mais forte, é quase um segundo instinto de sobrevivênicia (que pode eventualmente levar alguém a pôr fim na própria vida).

O que está faltando? Esse buraco sem fundo, como eu tapo? Esse vazio infinito, essa nostalgia de plenitude, o que eu faço com isso?

Somos levados a buscar algo que nos transcenda. Nada do que temos nas mãos ou diante dos olhos ou em nós parece ser o que estamos procurando.

Queremos ser felizes e não sabemos como. Daqui nasce a busca de Deus. Alguém que nos quebre esse galho.

Na largada da vida, partimos todos em busca de algo. E se não houver esse algo? Se simplesmente isso não existir? -Não seria a vida uma terrível piada de mal gosto? -Não importa, vamos sempre continuar procurando, ainda que morramos todos tentando.

terça-feira, abril 04, 2006

O difícil...

Eu sempre soube o que era o certo e o errado.
O foda sempre foi escolher.

(Frase do Crânio, colega do Pierre.)

quinta-feira, março 16, 2006

Tudo é questão de...

Tudo é questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranqüilo.

sábado, março 11, 2006

Pedras de tropeço

Outra coisa que não me sai da cabeça ultimamente. Que são as tentações? Por que estamos sujeitos a elas? Por que nossos desejos não são sempre bons? O que há de errado com nossa bússola interna, que nos indica a direção errada?

"Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal."

Nota: Entendi agora que a conjunção adversativa na oração subordinada que encerra o Pai Nosso significa que o "cair em tentação" ata-nos, prende-nos ao mal.

O que queremos e o que pedimos é não cair em tentação, mas, pelo contrário, libertar-nos do mal.

O mal é cair em tentação.

Ou melhor, a tentação é o próprio desejo do nosso próprio mal.

PS. E o que há de errado com nossa bússola interna, que nos indica a direção errada?

Único caminho, eu disse?

Relendo o que escrevi, acho que vale a pena afirmar que, ao falar de um único caminho, não queremos ser demasiado restritivos.

A experiência é necessária, mas não se trata de ir vivendo a vida sem dar ouvidos ao que os mais experientes têm a dizer. Devemos procurar aconselhamento, em atitude sincera de quem honestamente quer acertar. Não quis levantar a bandeira do "ouça o que eu digo, não ouça ninguém".

Isso é lógico. O que Graograman fez foi dar um primeiro conselho, e o que eu estou tentando fazer é receber bem esse conselho e passá-lo adiante. E você, leitor, pelo visto, está fazendo o mesmo que eu.

O perigo dos maus desejos

Ainda sobre as postagens anteriores.

Importa descobrir o grande segredo, que inclui saber sempre que caminho tomar, escolher o melhor pra nós em cada situação concreta.

Alguma experiência da vida é necessária. Por isso não há outro caminho senão o dos próprios desejos. "Isso me deixa bem, aquilo me deixa mal..."

Entretanto, há o grande perigo advertido pelo Graograman: "Esta é a mais perigosa de todas as jornadas. Ela requer a maior honestidade e vigilância, porque nao há outra jornada na qual seja tão fácil se perder para sempre."

No caminho dos desejos, é preciso estar muito atento ao que realmente nos convém. Frequentemente a satisfação de um desejo é tão doce na boca quanto amarga no ventre. E a burrice humana perde muito facilmente a capacidade de estabelecer aí uma relação de causa e efeito. Um desejo inconveniente pode confundir e cegar, de modo que se perde para sempre o caminho do nosso maior desejo. Entra-se num caminho sem volta, sem se dar conta, que conduz à frustração existencial.

Não raras vezes a atitude de quem chega nesse ponto consiste na negação de que existe uma felicidade ao alcance do homem. Cinismo.

Lembro de uma resposta de Frank Sinatra - The Voice - ao comemorar seus 80 anos de vida, numa entrevista em que lhe perguntaram se ele se considerava feliz: "Tenho mais dinheiro do que posso gastar. Tive todas as mulheres que quis. Sou famoso, querido, bem recebido em todas as partes do mundo, onde quer que eu vá. No entanto, não sou feliz, e nem sequer acredito que se possa chegar a sê-lo."

Triste fim.

sexta-feira, março 10, 2006

Ainda os tais desejos

Sobre a postagem anterior...

O que todos realmente querem? Ser felizes. Mas a felicidade não está ao alcance da mão, é antes um caminho que se percorre de onde estamos até esse ideal.

Por que nada é mais difícil do que fazer o que realmente queremos? Porque muitas vezes somos enganados pelos nossos próprios desejos, que nos puxam pro lado errado, e o resultado frustra mais do que contenta. Nada é mais difícil do que escolher sempre o que é verdadeiramente melhor pra nós.

Este é o nosso mais profundo segredo, o qual nós próprios ignoramos.

Como descobri-lo? Percorrendo o caminho dos desejos. Pois alguma experiência é necessária para se aprender a escolher bem. É possível avaliar de alguma forma um caminho que se abre diante de nós sem ter que percorrê-lo até o fim.

Uma experiênicia, e uma avaliação: no final das contas, isso realmente valeu a pena? Isso foi realmente bom? Foi realmente bonito? Me fez mais feliz? Fez de mim uma pessoa melhor? Vale a pena entrar por esse caminho até as últimas consequências?

E o perigo? Do perigo eu falo depois.

sábado, março 04, 2006

O Caminho dos Desejos

Alguns dias depois eles tiveram outra séria conversa.

Bastian mostrou ao Leão a inscrição no verso do amuleto. "O que você acha que significa?" perguntou ele. "FAÇA O QUE VOCÊ DESEJA. Isso deve querer dizer que eu posso fazer qualquer coisa que eu sentir vontade. Você não acha?"

De repente o rosto de Graograman ficou assustadoramente grave, e seus olhos brilharam. "Não," disse ele em sua voz profunda e retumbante. "Isso significa que você deve fazer o que você realmente e verdadeiramente quer. E nada é mais difícil."

"O que eu realmente e verdadeiramente quero? O que você quer dizer com isso?"

"É o seu mais profundo segredo, e nem mesmo você o conhece."

"Como eu posso descobrir?"

"Indo pelo caminho dos desejos, de um para outro, do primeiro ao último. Isso irá levá-lo ao que você realmente e verdadeiramente deseja."

"Isso não parece tão difícil," disse Bastian.

"Esta é a mais perigosa de todas as jornadas."

"Por que?" perguntou Bastian. "Eu não estou com medo."

"Não se trata disso," rugiu Graograman. "Ela requer a maior honestidade e vigilância, porque nao há outra jornada na qual seja tão fácil se perder para sempre."

"Você quer dizer que nossos desejos nem sempre são bons?" Perguntou Bastian.

O leão golpeou com a calda a areia. Suas orelhas se abaixaram, ele torceu o focinho e seus olhos encheram-se de fogo. Involuntariamente Bastian se encolheu quando a voz de Graograman novamente fez a terra tremer: "O que você sabe sobre desejos? Como você poderia saber o que é bom e o que não é?"

Nos dias seguintes Bastian pensou bastante no que a Morte Multicor havia dito. Mas há certas coisas que nós não podemos entender simplesmente pensando nelas, mas apenas por experiência. Somente muito tempo depois, após todo tipo de aventuras, ele se lembrou das palavras que Graograman lhe dissera e começou a entendê-las.

—A História sem fim, de Michael Ende. Capítulo XV – Graograman, a Morte Multicor. Tradução espontânea minha mesmo.

quarta-feira, março 01, 2006

The way of the wishes

Some days later they had another serious talk.

Bastian had shown the lion the inscription on the reverse side of the Gem. "What do you suppose it means?" he asked. "'DO WHAT YOU WISH.' That must mean I can do anything I feel like. Don't you think so?"

All at once Grograman's face looked alarmingly grave, and his eyes glowed."No," he said in his deep, rumbling voice. "It means that you must do what you really and truly want. And nothing is more difficult."

"What I really and truly want? What do you mean by that?"

"It's your own deepest secret and you yourself don't know it."

"How can I find out?"

"By going the way of your wishes from one to another, from first to last. It will take you to what you really and truly want."

"That doesn't sound so hard," said Bastian.

"It is the most dangerous of all journeys."

"Why?" Bastian asked. "I'm not afraid."

"That isn't it," Grograman rumbled. "It requires the greatest honesty and vigilance, because there's no other journey on which it's so easy to lose yourself forever."

"Do you mean because our wishes aren't always good?" Bastian asked.

The lion lashed the sand he was lying on with his tail. His ears lay flat, he screwed up his nose, and his eyes flashed fire. Involuntarily Bastian ducked when Grograman's voice one again made the Earth temble: "What do you know about wishes? How would you know what's good and what isn't?"

In the days that followed Bastian thought a good deal about what the Many-Coloured Death had said. There are some things, however, that we cannot fathom by thinking about them, but only by experience. So it was not until much later, after all manner of adventures, that he thought back on Graograman´s words and began to understand them.

—The Neverending Story, by Michael Ende. Chapter XV – Graograman, the Many-Colored Death.