quinta-feira, junho 30, 2005

Sofrimento

Ouvia certa vez o genial poeta e filósofo Bruno Tolentino comentar que, se não me engano, Nélida Pignon lhe havia revelado, numa frase de profundidade insuspeitada, que no Horto das Oliveiras está plasmada toda a nossa condição humana. Bruno falava de realismo, ao apresentar seu último trabalho: O Mundo como Idéia.

Comento: no Horto das Oliveiras, está o Homem que chora e pede a Deus, num último recurso, que as coisas sejam diferentes, por não podê-las suportar como se apresentam.

Refletindo sobre isso, concluí que o que tenho friamente chamado de inadaptação entre o eu e a realidade consiste essencialmente no problema do sofrimento.

quarta-feira, junho 29, 2005

Revoltar-se ou Conformar-se?

Escrevi um artigo grandão sobre revolta e conformismo, que são duas formas extremas de lidar com a inadaptação do eu à realidade. Aí na hora de postar deu pau e perdi o que escrevera. Inconformado, reescrevo.

O conformismo me parece ser a aceitação cega das coisas como supostamente são, como se essas não pudessem ser modificadas.

É passividade triste e derrotada. Como escreveu Thoreau, a maioria das pessoas passa a vida num calmo desespero. Na letra de Time, Pink Floyd: "hanging on in quiet desesperation" cai melhor. É assim, que se há de fazer?

Por outro lado, a revolta consiste numa energia impetuosa orientada a atacar (não necessariamente resolvendo) uma inadequação entre a realidade e o eu, modificando uma ou ambas as partes desse binômio.

O inconformismo é portanto bom, tratando-se de uma energia transformadora, capaz de mudar o mundo e a nós mesmos.

A questão está em outro ponto. O que precisa mudar? Qual o foco do problema? -Isso é ainda mais difícil de responder, se repararmos que a revolta, não raras vezes, se faz acompanhar pela paixão da ira, cegando ou ofuscando o indivíduo. Turva-se a visão, para onde atirar?

Provavelmente, o alvo do problema não se encontra realmente polarizado, mas sim distribuído em proporções desconhecidas entre as duas partes: o eu e o "alter", eu as outras coisas. -E quão difícil é discernir! O quanto eu preciso mudar e o quanto o mundo precisaria mudar. Mais ainda: mudando a mim mesmo, quanto posso mudar do mundo ao meu redor para que se resolva essa questão?

Conhece-te a ti mesmo, alertava o oráculo de delfos. Aqui está a chave para todos os problemas pessoais. Ah, se nos conhecêssemos perfeitamente. É um sonho distante, mas que vale a pena perseguir. Por isso, a busca. Por isso, filosofia.

terça-feira, junho 28, 2005

Por que???

As coisas são como são. Mas por que?
Por que? Procuro uma causa, um sentido, alguma orientação racional que me faça compreender melhor a implacável realidade.
-Por que nascer, viver e morrer?

(Refigio-me no silêncio.)

Voltando ao Realismo

Onde estávamos? Ah, sim, as coisas são o que são.
Eu não posso fazer com que tudo seja diferente com um simples ato da minha vontade. Então que fazer? Simplesmente adaptar-se.
Adaptação. Segundo Darwin, as espécies que se sobressaem não são as mais fortes, mas as mais adaptadas.
E como o homem se adapta? Usando inteligência, imaginação e criatividade para modificar, no que for possível, aquilo que está ao seu alcance.
Só posso modificar as coisas de maneira imperfeita parcial, e na medida em que atuo sobre as mesmas.
Atuar. Agir. Fazer.
Mas não quero com isso jamais significar que pensar é inútil. É necessário. No pensamento se projeta a realidade, planeja-se o futuro com dados do presente e do passado. E pensar é também atuar sobre mim.

Em círculos


Andar andar
Correr correr
Sem jamais parar
Sem saber porque

(Gravura do Echer)

domingo, junho 26, 2005

Teoria do conhecimento

O que eu percebo do mundo por acaso é igual ao que os outros percebem? Quem me garante? Não dá pra saber. Mas como não tenho acesso a essas possíveis outras visões pessoais e diversificadas do mesmo mundo, tenho que supor que não pode ser muito diferente de pessoa pra pessoa. Se fosse, nem sequer conseguiríamos nos comunicar. (Talvez por isso os loucos sejam incompreendidos...)

Um ponto de partida realista

Que sou eu e que são as coisas ao meu redor? Por acaso o mundo sou eu e mais seis bilhões de meros coadjuvantes, como às vezes penso?

Um começo. Eu tenho certeza de que eu existo. Estou falando comigo mesmo, estou escrevendo meus pensamentos por vontade própria. Disso tenho clara evidência.

E o resto? Seria sonho? Há realidade nas coisas ao meu redor? Pra mim são bem reais. Mas será que existem de fato ou eu simplesmente os produzo? Será que não sai tudo isso da minha cabeça? Quero acreditar que não. Em primeiro lugar porque o mundo não é como eu quero e as coisas não são como eu gostaria. Se eu gerasse todas as coisas, como na hipótese considerada, geraria também essa contradição intrínseca, e teria que me culpar pelo fato das coisas não serem de acordo com o que eu desejaria. Isso geraria em mim ódio por mim mesmo, que me consumiria, aos poucos me destruiria, e ao cabo desse processo, nem eu nem as coisas existiríamos mais. Será que o universo é assim tão frágil? Tolice!

Es segundo lugar, se todas as coisas saíssem da minha cabeça, todo conhecimento, toda a beleza, toda a infinitude surpreendente do universo teria que caber entre as minhas duas orelhas! Todas as coisas ocultas me seriam reveladas por mim mesmo, no momento certo, sem que nunca houvesse falha nesse processo? Isso me parece difícil de acreditar. E não acreditar nisso é um alívio. Que bom que há coisas novas, diferentes e que me superam, nas quais eu posso encontrar alimento pra minha inteligência e pros meus desejos!

O primeiro choque é que as coisas são como são. Não dependem de mim. Se eu morrer, não acredito que o mundo como eu o conheço vá entrar em colapso e se extinguir. Vai continuar sua marcha, impassível. Eu sou só um a mais nesse emaranhado de existências que constituem a realidade.

Tenho que aceitar que as coisas são como são. Mas não significa que são estáveis e que não podem ser modificadas. Apenas, eu não tenho poder de modificá-las com minha vontade. (Fez-me lembrar o sonho zen-budista de modificar a realidade pela via da iluminação, do conhecimendo de que isso seria possível. Se assim fosse, haveria no mundo uns quantos "escolhidos" alterando a matrix... Não, não é por aqui.)

Posso apenas, modestamente, contribuir pra modificar algo na medida em que interajo com esse algo. É preciso trabalhar a realidade para mudá-la. E pra trabalhá-la, é preciso estar em contato com ela. E daqui eu tirei um pensamento interessante: a coisa que tenho mais possibilidade de mudar é aquela com a qual tenho um contato mais estreito: sou eu mesmo, no encontro de mim comigo mesmo.

sábado, junho 25, 2005

Agnosticismo

Meu amigo agnóstico, você diz que a verdade pode ser isso ou aquilo, mas acha impossível descobri-la, impossível poder saber ao certo. E eu lhe pergunto: como pode estar tão certo?
Sua única certeza é não haver mais que incertezas... Como pode estar tão certo?

Recomeço

Dor de cabeça. Levei uma pancada? Abro os olhos lentamente, tento me levantar. Olho ao redor. Tontura, mal estar, dor de cabeça. A visão turva, embaçada, aos poucos vai se acostumando com a luz. Estou confuso. Já vi isso antes em algum lugar... (Será que foi num desenho animado?) E as tais perguntas. Quem sou eu? Onde estou? Como é que eu vim parar aqui? E agora, pra onde é que eu vou? Alguém pode me ajudar?

* * *

Penso...
Gente sem resposta, essa mesma gente segue sem se perguntar. Mas a vida é isso aqui, vocês não se perguntam? Nunca suspeitaram de nada? Talvez não tenham levado uma pancada na cabeça, como eu. Não se perguntam, e não tem as respostas que eu demando. Eu venho incomodar-lhes. Dane-se! Vou descobrir.

sexta-feira, junho 24, 2005

Relacionamento humano

Por que é tão freqüente pessoas agirem na direção contrária do que gostariam? Por que magoamos aqueles a quem amamos?

O convívio estreito revela os defeitos pessoais que todos temos. E nossos defeitos, tal como nossos odores pessoais, não nos incomodam a nós próprios, mas causam incômodo nas pessoas ao nosso redor. E o incômodo será tanto maior quanto maior for essa proximidade.

Isso á assim mesmo. Conquistar uma amizade, um amor, é como pescar um grande peixe. Há momentos de dar linha, e momentos de puxar. Com paciência. Saber ceder, saber exigir.

Há que passar muita coisa por alto, mas não se pode deixar que os defeitos daqueles que amanos os consumam. Há que saber corrigir. Dar linha, e saber puxar na hora certa.

As pedras podem ser polidas pelo simples atrito umas com as outras. E o que eram pontas, asperezas e imperfeições, torna-se com o tempo uma superfície lisa e de contato agradável. Assim seja conosco. Que o convívio nos leve a ser cada dia melhores.

terça-feira, junho 21, 2005

Machos e Fêmeas

Numa conversa de boteco, o tema não demora muito a aparecer. Sem cair na vulgaridade, certa vez estava conversando com meu amigo sui generis Pierre, e apontamos algumas características e diferenças notáveis nas fêmeas de nossa espécie humana.

A primeira que ele apontou foi a falta de senso de humor. Ou a falta do que nós homens entendemos por senso de humor. É raro ver uma mulher contando pidada, por exemplo. Mas essa característica fica ainda mais evidente na reação feminina ao senso de humor masculino.

Senso de humor é inteligência, de certa forma, e sensibilidade, de outra. É muito humano. Mas parece que homens e mulheres não se entendem muito bem aqui. É constrangedor, pra começar, quando elas não entendem que a piada existe e levam tudo a sério. No entanto, o mais freqüente é que entendam muito bem a besteirada toda, e simplesmente não achem graça nehuma.

Riem muito entre elas, isso sim, mas com um senso de humor "diferente". Talvez as mulheres sejam demasiado pragmáticas e achem que não vale a pena tanta bobagem. Os humoristas profissionais, que são quase sempre todos homens (ainda que alguns sejam não praticantes), fazem piadas com senso de humor masculino, o que só aumenta a dificuldade de assimilação por parte delas.

Falta de convívio com os machos da nossa espécie? Sei não. Alguém levantou que elas amadurecem mais rápido, aos 13 anos, e nessa fase surge o preconceito de que os meninos só falam bobagem e criancices. Sabe de uma coisa? Não é verdade que elas amadureçam mais rápido que nós. Os homens chegam no auge da maturidade aos 9 anos de idade, e assim ficam pro resto da vida! Mas passemos adiante, que esse assunto não tem quase graça nenhuma.

Outra consideração antropológica viking é que nós homens só enxergamos 11 cores, com as possíveis variações claro e escuro. As mulheres possuem uma paleta de cores muito mais ampla. Senão vejamos: essas cores com nome afrescalhado, que uma voz feminina por vezes nos aponta, podem sempre ser simplificadas para o universo palpável das 11 cores básicas que nós homens podemos ver. Bege? -Marrom. Ciano? -Azul claro. Salmão? -Rosa. Marfim? -Cinza claro. Marinho? -Azul escuro. Verde! Amarelo! Laranja! Vermelho!...

Faça você mesmo (se você for homem, naturalmente) a experiência. É divertido. Parece que elas enxergam mesmo uma porção do espectro visível muito maior do que a que nós enxergamos.

E porque será que os homens só enxergam 11 cores? Pensei um pouco a respeito, e na minha ótica masculina cheguei a uma conclusão: enxergamos só 11 porque não existem outras. Apenas variações de claro e escuro...

segunda-feira, junho 20, 2005

A pena do que vale...

Coletânea de idéias pseudo-desconexas, todas muito legais...
Disse-me o Miguel que a solidão é o preço da liberdade. Porque quando decidimos, quando optamos voluntariamente, somos inteiramente responsáveis (cada um, sozinho) pelo ato em si e por suas consequências.
Fez-me lembrar a Renata Teófilo, que foi quem me chamou a atenção para aquela letra do Humberto Gessinger: "a dúvida é o preço da pureza". (Pra quem quiser ir mais além, a letra segue: "e é inútil ter certeza").
Então veio a pergunta. Será que todas coisas tem um preço? -Certamente todas as coisas têm um certo valor. E as coisas boas, quanto melhores, mais valem. E repare que tudo que é bom, tudo o que "vale a pena" custa esforço. É boa porque vale, e vale precisamente uma pena para ser conseguida. Não é assim a vida?
E então, será que as coisas fáceis não tem valor? Ou somos nós que não damos valor senão ao que nos custou um pouco de sangue, suor e lágrimas, esforço e sacrifício?
Semana passada me disse uma senhora esotérica que as coisas mais importantes que temos, recebe-mo-las de graça. E enumerava: o ar que respiramos, a luz branca do sol, a brisa e o vento, o prazer de um banho, e a própria vida. Pensando bem, ela não acrescentou nada de novo ao que escrevia Paulo de Tarso, cerca de 2000 anos antes da era que agora se proclama nova: tudo é dom, tudo é graça.
Acabo pensando que as coisas valem pelo que são, e tanto mais valem quanto melhores são (i.e. quanto mais bem contém e proporcionam). Algumas dessas coisas nós as conquistamos. Faz parte da vida divertirmo-nos correndo atrás do nosso bem... E aqueles bens muito elevados, os quais nunca teríamos tido a menor chance de conquistarmos, precisamente esses, nós recebemos de graça. É pra ficarmos agradecidos, não é?

Ocorre-me ainda outro problema. As pessoas podem errar na avaliação das coisas. Evidentemente, passamos a vida em busca do bem, todo mundo quer ser feliz... Mas também é evidente que nem todos alcançam a felicidade quando alcançam o que tanto buscaram. É um ponto delicado. Mas posso pagar um preço caro por algo que não tenha nenhum valor. Por exemplo, imagine um avaro, que perca a família e todos os amigos por amar doentiamente seu dinheiro. Podemos, portanto, deliberadamente pagar uma pena pesada sem obtermos recompensa alguma.

São complicados esses temas... É difícil achar respostas. E como ocorre em todo o campo das humanidades, ao cabo de muito estudo e reflexão, cada tese poderá ser rejeitada e rebatida por uma mera opinião, ignorante, apaixonada, preconceituosa ou simplesmente obstinada em contrariar.

sábado, junho 18, 2005

Tempo

Dizia o mestre Genuíno Sales: " O tempo não perdoa o que se faz sem ele". Dizia Fernanda Takai Fu: tempo tempo mano velho... Dizia David Gilmour: You are young and life is long and there is time to kill today... Dizia alguém que nada sustém a sua marcha inexorável... E disse algum filósofo que o tempo é a medida do movimento (da mudança, em linguagem corrente). Sempre me impressionou. Foram os primeiros versos que escrevi, e o tema me é recorrente. Transcrevo-os, sem deixar de rir lembrando do velho amigo Sávio Brito, imitando a saudosa professora de redação Vera Lúcia: "Quanta sensibilidade! Êta vida besta, meu Deus!".

Tempo

tic tac tic tac
tac tic tac tic
tic... tic... tic...
tac... tac... tac...

O tempo choca!
A vaca pasta,
O pássaro voa.
Não progrediram.
Não regrediram.
Estão apenas mais velhos!


Sabe o que penso? O recado do Gilmour é preciso: And then one day you find ten years have got behind you. No one told you when to run. You miss the starting gun. É duro. Mas é a vida.

sexta-feira, junho 17, 2005

Um começo.

Bom, tudo tem começo. Começar é fácil. Ainda mais quando não se tem vontade, apenas uma necessidade correlata. Que será? Quem sabe? Só posso inferir sobre o que é. Foi nada não, é uma espécie de diário. Intrapsicodélico, tô nem aí. Mas existe um "mas"... Preciso de carinho, de dinheiro, de oxigênio, de amigos, e de um pouco mais de originalidade. Hoje é sexta. Vou pegar a barca, vou colocar as cordas no violão, e domingo começo a gravar algo. Pensei no repertório... Algo levinho, mas com um sentido ressonante atual. E estou contente! :D Viva!