Que sou eu e que são as coisas ao meu redor? Por acaso o mundo sou eu e mais seis bilhões de meros coadjuvantes, como às vezes penso?
Um começo. Eu tenho certeza de que eu existo. Estou falando comigo mesmo, estou escrevendo meus pensamentos por vontade própria. Disso tenho clara evidência.
E o resto? Seria sonho? Há realidade nas coisas ao meu redor? Pra mim são bem reais. Mas será que existem de fato ou eu simplesmente os produzo? Será que não sai tudo isso da minha cabeça? Quero acreditar que não. Em primeiro lugar porque o mundo não é como eu quero e as coisas não são como eu gostaria. Se eu gerasse todas as coisas, como na hipótese considerada, geraria também essa contradição intrínseca, e teria que me culpar pelo fato das coisas não serem de acordo com o que eu desejaria. Isso geraria em mim ódio por mim mesmo, que me consumiria, aos poucos me destruiria, e ao cabo desse processo, nem eu nem as coisas existiríamos mais. Será que o universo é assim tão frágil? Tolice!
Es segundo lugar, se todas as coisas saíssem da minha cabeça, todo conhecimento, toda a beleza, toda a infinitude surpreendente do universo teria que caber entre as minhas duas orelhas! Todas as coisas ocultas me seriam reveladas por mim mesmo, no momento certo, sem que nunca houvesse falha nesse processo? Isso me parece difícil de acreditar. E não acreditar nisso é um alívio. Que bom que há coisas novas, diferentes e que me superam, nas quais eu posso encontrar alimento pra minha inteligência e pros meus desejos!
O primeiro choque é que as coisas são como são. Não dependem de mim. Se eu morrer, não acredito que o mundo como eu o conheço vá entrar em colapso e se extinguir. Vai continuar sua marcha, impassível. Eu sou só um a mais nesse emaranhado de existências que constituem a realidade.
Tenho que aceitar que as coisas são como são. Mas não significa que são estáveis e que não podem ser modificadas. Apenas, eu não tenho poder de modificá-las com minha vontade. (Fez-me lembrar o sonho zen-budista de modificar a realidade pela via da iluminação, do conhecimendo de que isso seria possível. Se assim fosse, haveria no mundo uns quantos "escolhidos" alterando a matrix... Não, não é por aqui.)
Posso apenas, modestamente, contribuir pra modificar algo na medida em que interajo com esse algo. É preciso trabalhar a realidade para mudá-la. E pra trabalhá-la, é preciso estar em contato com ela. E daqui eu tirei um pensamento interessante: a coisa que tenho mais possibilidade de mudar é aquela com a qual tenho um contato mais estreito: sou eu mesmo, no encontro de mim comigo mesmo.
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